A PROPÓSITO DAS GUERRAS NA UCRÂNIA Uma tentativa de visão a partir dos factos Parte 1 por António Gomes Marques

A PROPÓSITO DAS GUERRAS NA UCRÂNIA

Uma tentativa de visão a partir dos factos

Parte 1

 

por António Gomes Marques

Preâmbulo

Se há alguma coisa que tenho procurado estudar com cuidado nos últimos tempos é a guerra na Ucrânia, ou melhor, as guerras na Ucrânia, o que me permite dizer que não me lembro de ouvir tanta mentira por parte da narrativa ocidental. Alguém se preocupa em saber o que é a Rússia e a vida do seu povo? Analisando o que se tem passado na Rússia desde que Putin é o seu Presidente, não me lembro de um país que tenha tido um desenvolvimento semelhante em tão curto espaço de tempo. Vejo, isso sim, a degradação a que a narrativa ocidental, comandada pelos EUA, nos tem levado; vejo uma decadência acentuada e que se tem acelerado nos últimos tempos do Ocidente; vejo o consentimento ocidental ao genocídio que acontece em Gaza e na Cisjordânia. Seria bom que procurássemos todos conhecer o que tem acontecido REALMENTE na Rússia desde o ano 2000.

Eu estive na Rússia no último ou penúltimo ano da União Soviética e voltei em 2015, já com 15 anos de poder de Putin e posso falar, com propriedade, das diferenças abismais para melhor.

Há na Rússia uma democracia autoritária que muito dificulta a acção da oposição, mas esse é um problema que os russos terão de resolver. Putin não é o tirano sanguinário da narrativa ocidental e concluí que, se há alguém preocupado e muito atento às reivindicações operárias e sempre atento e preocupado em manter o apoio da maioria do povo russo, o que faz com medidas que melhoram a vida dos russos, esse alguém é Putin e a sua equipa, o que julgo que tem permitido que se mantenha no poder.

Habitualmente, quem não tem argumentos baseados em factos costuma dizer-me para eu ir viver para a Rússia, o que é um argumento (?) muito «democrático». Considero-me um cidadão do mundo, português e europeu e é no espaço em que nasci que quero viver e onde tenho direito a viver e a emitir, baseado em factos, as minhas opiniões; não me considero o detentor da verdade, mas espero que rebatam os meus argumentos com factos. É evidente que eu não gostaria de viver num regime semelhante ao da Rússia, mas eu tenho já o vício de poder gozar da chamada liberdade, o que exerço com responsabilidade e não vejo muita gente a fazê-lo com essa necessária responsabilidade.

Falar sobre a Rússia sem nada saber do que ali se passa realmente, é uma desonestidade. Só temos o direito de criticar os outros depois de olharmos com olhos de ver para nós mesmos.

Apresento de seguida o meu trabalho sobre a guerra na Ucrânia, ou melhor, sobre as duas guerras na Ucrânia, que coloco democraticamente ao juízo de quem quiser interessar-se pelo assunto. Mas não me venham com os argumentos de que preferem viver em liberdade no Ocidente com eleições livres (Ah! Ah! Ah!), blá, blá, blá e sem apresentar um único argumento. Já não tenho paciência nem tempo a perder com análises não baseadas em factos, ou seja, meras opiniões de quem toma os desejos por realidade e assim a tentar justificar a acção da NATO/OTAN, como se fosse em defesa dos interesses do Ocidente. Também já me falta paciência para assistir a tanta incapacidade dos dirigentes políticos ocidentais, com realce para os europeus, para gerir os países ditos democráticos.

Quanto ao texto que se segue, critiquem-no, mas honestamente, com base em factos.

Ucrânia, Estados Unidos da América do Norte e Implosão da URSS

Para tentar entender o que está a acontecer na Ucrânia, recuei na história.

O território sabe-se que é habitado desde 32.000 antes da nossa era (ou, se quiserem, a. C.), mas não fui até aí, evidentemente.

Durante a Idade Média, houve um grande desenvolvimento da cultura eslava oriental que viria a criar a identidade ucraniana com a federação tribal russa de Kiev. Aqui, não posso deixar de sublinhar a importância da cultura eslava oriental como um dos factores fundamentais na criação da identidade do país, o que é bem diferente da Europa Ocidental, que agora quer convencer-nos de que a identidade da Ucrânia é ocidental.

Passo por alto a fragmentação que aconteceu devido à invasão mongol, mas não podemos ignorar que deu origem a uma divisão por vários poderes, cada qual com a sua parcela do território —Comunidade Polaco-Lituana, Império Austro-Húngaro, Império Otomano e o Czarado da Rússia—, mas após algum domínio cossaco, com alguma prosperidade, a guerra da Rússia contra o Império Otomano permitiu a Catarina II obter acesso ao Mar Negro e juntar ao seu território os portos do Sul da Ucrânia, fundando as cidades de Odessa, Nikolayev, Yeakaterinoslav e Kherson. O Tratado de Küçük Kaynarca, de 10 de Julho de 1774, deu aos russos as províncias de Azov, Kerch, Yenikale, Kinburn e o território da costa do Mar Negro entre os rios Dnieper e Bug. Em 1783, Catarina II anexou a Crimeia, território este que tinha conquistado a independência ao Império Otomano nove anos antes com a ajuda dos russos.

Os otomanos voltaram a entrar em guerra com a Rússia (1787-1792), a qual terminou com um desastre para os otomanos, permitindo, pelo Tratado de Jassy, no fim da guerra, a legitimidade da anexação por parte do Império Czarista da Crimeia.

Aqui, faço uma chamada de atenção: a que propósito é que a Ucrânia reivindica a Crimeia como sendo parte do seu território? Para mais quando se sabe que foi Nikita Khrushchov —que Estaline nomeou dirigente do Partido Comunista da Ucrânia e neste país viveu muitos anos, ao ponto de o considerarem ucraniano, o que não é verdade, dado que nasceu na região de Kursk—, quem transferiu a Crimeia para o território da Ucrânia em 1954, assinando um decreto que justificava tal acto como uma medida de carácter simbólico e estratégico de modo a cimentar os laços entre a Ucrânia e a Rússia, mantendo a Rússia a base de Sebastopol. Claro, N. Khrushchov pensava que a União Soviética se manteria ad aeternum. Há quem diga que o N. Khrushchov assinou o decreto em situação de uma bebedeira de caixão à cova. Verdade ou mentira? Pouco importa. O que deve sublinhar-se é que se tratou de uma transferência puramente administrativa no quadro do mesmo espaço político, o da então URSS.

No tempo de Catarina II, a Ucrânia acabou dividida entre a Rússia e a Polónia. No entanto, é bom lembrar que há territórios ucranianos que, ao longo dos anos, foram passando para a Polónia e para a Ucrânia em resultado de vários conflitos, levantando-se em mim uma dúvida: não estará a Polónia, apesar de dizer apoiar a Ucrânia na guerra actual, à espera do desmantelamento da Ucrânia de modo a reaver o território que perdeu? O tempo dirá se a minha dúvida se justifica.

Após a Revolução Russa de 1917, foi reconhecida a República Popular da Ucrânia, que viria a ser um dos países fundadores da URSS.

E foi a União Soviética que deu uma aparência de unidade a um país chamado Ucrânia. Escreve Emmanuel Todd: “A Oeste, a Ucrânia ultranacionalista, está sobre representada nas elites políticas; o Centro, a anárquica Ucrânia, está sobre representada na elite da polícia militar. O Leste e o Sul, a Ucrânia anómica, só têm ao seu lado os oligarcas, que, na sua maioria, foram marginalizados ou subjugados desde o início da guerra.

Os acontecimentos favoreceram o surgimento de uma estrutura centralizada que não é propriamente um Estado, mas uma organização policial-militar financiada por Washington, e os oligarcas desapareceram naturalmente como autoridades autónomas, com o pluralismo que defendiam. A sua queda também está ligada à queda geral da Russofonia. Esta descrição não exclui de forma alguma a existência de forças e grupos ideológicos que competem pelo controlo da administração e dos subsídios ocidentais, mas que são, acima de tudo, sinceramente nacionalistas.” (1)

E acrescenta E. Todd: “Foi, portanto, ao verdadeiro nascimento da nação ucraniana que assistimos em 2014, através da aliança do ultranacionalismo do Ocidente e do anarco-militarismo do Centro, contra a parte russófila do país, muito enfraquecida pela fuga das suas elites. E foi esta nova nação ucraniana, reduzida e concentrada, que resistiu eficazmente ao ataque russo.” (2)

De facto, no Leste e no Sul, a parte da Ucrânia pró-russa, o avanço das forças russas foi rápido, a partir daí a resistência ucraniana tem sido muito forte.

Mas estou a adiantar-me, há que voltar um pouco atrás.

Após a II Guerra Mundial, foi Estaline a definir as fronteiras entre a Polónia, a Ucrânia e a Rússia, com a Polónia a fazer parte do Bloco de Leste e, posteriormente, do Pacto de Varsóvia, sob o comando incontestado do ditador Estaline.

A Ucrânia incorporou dentro das suas fronteiras parte da Polónia, parte da Hungria e também da Roménia. Terá sido na Conferência de Potsdam que tudo ficou acordado, sendo a Ucrânia um dos estados da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas com o espaço territorial definido por Estaline, que não incluía a Crimeia, note-se. Antes de Estaline, como a história nos mostra, foi Lenine que, na configuração da Ucrânia após a Revolução de Outubro de 1917, incluiu o Donbass na Ucrânia, região esta que pertencia dantes à Rússia.

Há que recordar que a Bielorrússia, presidida por Stanislav Shushkevitch, e a Ucrânia, presidida por Leonid Kravtchuk, se tornaram independentes da URSS em 1991.

Em 8 de Dezembro de 1991, Iéltsin encontra-se com aqueles dois presidentes e assinaram o que ficou conhecido por Pacto de Belaveja, o qual ditava a dissolução da União Soviética, pacto esse que se manteve secreto por algum tempo, tendo como objectivo, para além de acabar com a União Soviética, possibilitar que Iéltsin se livrasse de M. Gorbatchov.

Em 24 de Dezembro desse mesmo ano, num encontro Gorbatchov-Iéltsin, o primeiro aceitou dissolver a URSS, criando-se de seguida a Federação Russa, que herdou o assento da União Soviética nas Nações Unidas (ONU).

Passo agora ao que neste texto mais me parece interessar para se chegar aos acontecimentos actuais: a implosão da União Soviética.

Os governos de Iéltsin são recordados como promotores de várias reformas políticas e económicas e pelo caos social que provocaram. A economia socialista foi substituída pela economia de mercado, caracterizada pelas muitas privatizações, forma de espalhar as propriedades do Estado, e liberalização económica.

As privatizações visavam também — ou sobretudo? — obter um forte apoio das elites russas para si, com muitas dessas propriedades a ficarem nas mãos dos mais ricos a troco de empréstimos ao Estado, tendo sido assim que os mais ricos do mundo das finanças, da indústria, da energia, das telecomunicações e dos meios de comunicação se tornaram nos grandes oligarcas.

A população recebeu vouchers (que podemos traduzir por garantias ou comprovantes de determinado valor) para serem trocados por acções, com a justificação de fomentar assim a iniciativa privada, mas o resultado foi os cidadãos, com rendimentos muito baixos, se apressarem a vender as acções por um preço abaixo do seu valor, acções essas compradas pelos oligarcas, tornando-os ainda mais ricos, destacando-se Boris Berezovski, Mikhail Khodorkovski e o, agora também cidadão português, Roman Abramovitch. A dívida externa, apesar das privatizações, não parava de aumentar.

Ainda no final de 1991, os especuladores e instituições como o Banco Mundial, o FMI e até o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos receberam a benção de Iéltsin para operar na Rússia, que aproveitaram a liberalização do comércio exterior, dos preços e da moeda. A receita habitual, estabilização macroeconómica com a inerente austeridade, sendo uma das justificações o controlo da inflação.

Não contente com tudo isto, Iéltsin aumentou e muito os impostos, cortou subsídios à indústria e construção e, claro, cortou fortemente na previdência.

Sucederam-se falências em muitas empresas, principalmente empresas industriais, e os aposentados perderam os direitos adquiridos em muitos anos de trabalho, a sua aposentação. O desemprego cavalgou nas estatísticas, a desigualdade social acentuou-se dramaticamente, o banco central da Rússia perdeu milhões de rublos de poupanças pessoais e milhões de russos caíram na pobreza. O PIB caiu 50%.

Entretanto, a nova classe surgida na Rússia, a dos oligarcas, vai ajudar à reeleição, em 1996, de Boris Iéltsin, apesar da sua crescente impopularidade e de todos o saberem doente. Mas era também o presidente conveniente para os interesses do Ocidente.

Iéltsin é também recordado pelas muitas situações embaraçosas devidas ao seu alcoolismo, não apenas na Rússia, mas também em viagens internacionais.

O presidente norte-americano Bill Clinton toca o saxofone oferecido por Iéltsin
(in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Boris_Iéltsin)

Em Novembro de 1999, houve um desentendimento entre Iéltsin e Clinton a propósito da Chechénia. Em Dezembro, numa visita à China, voltou a responder a Clinton de forma virulenta, com invocação por ambos dos arsenais nucleares. Foi quando entrou em acção Vladimir Putin para amenizar os comentários de Iéltsin e propor regras para o relacionamento entre a Rússia e os EUA.

Em 31 de Dezembro desse mesmo ano, Boris Iéltsin renunciou, surpreendentemente, ao cargo de presidente, assumindo Vladimir Putin o seu lugar e as eleições foram marcadas para 26 de Março de 2000, tomando Putin posse como presidente em 7 de Maio de 2000, iniciando assim o seu primeiro mandato.

Bill Clinton, em conversações com a Rússia, comprometeu-se ao não alargamento da NATO (OTAN) aos países «socialistas» (os que tinham pertencido à esfera soviética), mas depressa esqueceu o compromisso e na OTAN entraram a Chéquia, a Polónia e a Hungria em 1999, a Roménia, a Bulgária, a Lituânia, a Letónia, a Estónia e a Eslováquia em 2004, a Albânia em 2009, o Montenegro em 2017 e a Macedónia do Norte em 2020, aproximando a OTAN das fronteiras com a Rússia. Há hoje documentos disponíveis na internet que mostram o cinismo do Ocidente, nomeadamente dos governantes dos EUA (por ex.: https://www.rtp.pt/noticias/mundo/nato-fim-do-apaziguamento-com-russia-despoletado-pela-questao-do-kosovo_n1584345).

Os EUA, tendo em conta a fraqueza da Rússia, julgaram-se os únicos donos do Mundo, logo se apressando a invadir o Iraque sem dar cavaco aos aliados e à revelia da ONU. Para quê, se os EUA era a potência que, sozinha, decidia os destinos de todos os outros? Nesta acção, onde está o Direito Internacional?

Obama, após uma reunião sobre segurança nuclear na Holanda, em Março de 2014, declarou: “A Rússia é uma potência regional que está ameaçando alguns de seus vizinhos imediatos, não por causa de força, mas por causa de fraqueza” (https://exame.com/mundo/obama-chama-russia-de-potencia-regional/)

Os EUA sentiram-se seguros e senhores todos poderosos, enquanto a Rússia procurava sair do atoleiro e pôr a sua economia a crescer, mostrando a sua fraqueza. Mas houve um acontecimento a que os EUA não deram a devida importância: Vladimir Putin tornou-se Presidente da Rússia.

Mas recuo um pouco para lembrar que, em 2008, na cimeira da NATO em Bucareste, na Roménia, a NATO (ou OTAN, a sigla em português) anunciou que a Ucrânia e a Geórgia se tornariam seus membros, ao que a Rússia respondeu considerar que a admissão destes países na organização militar ocidental seria considerada como «ameaças existenciais». A Ucrânia tem uma fronteira terrestre com a Rússia de 1.900 km, com parte dela a menos de 650 km de Moscovo.

Ainda em 2008, após exercícios militares dos EUA na Geórgia, militares georgianos, treinados pelos americanos e com apoio financeiro e de armas fornecidos pelos EUA, lançaram um ataque contra a Ossétia do Sul — região semiautónoma da Geórgia, que faz fronteira com a Rússia e com quem tem profundos laços históricos —, ataque esse lançado sobre civis e não sobre instalações ou forças militares, o que levou a Rússia a cruzar a fronteira para combater as forças georgianas e defender os seus soldados que integravam uma força internacional de manutenção de paz, tornando claro que não toleraria a Geórgia como membro da NATO. Há um relatório resultante de uma investigação promovida pela União Europeia que considera legal a intervenção russa (https://www.publico.pt/2009/09/30/mundo/noticia/relatorio-da-ue-conclui-que-tbilissi-disparou-primeiro-tiro-na-guerra-da-georgia-1403159).

Salto agora para a Praça Maidan, em Kiev.

O Presidente da Ucrânia mostrou-se contrário à entrada da Ucrânia na União Europeia e aproximou-se da Rússia. Logo de seguida começaram os protestos antigovernamentais em Kiev, apoiados pelos EUA, servindo-se dos grupos chamados de neonazis (que se dizem seguidores do nazi Banderas, o colaborador de Hitler responsável pelo assassínio de milhares de judeus na Ucrânia. Banderas é hoje considerado um herói nacional pelo governo ucraniano). Estes grupos militarizados viriam a ser integrados por Zelenski nas forças militares da Ucrânia, grupos estes de extrema violência, assumidos “Nacional-socialistas”, mas que foram apelidados de “ultranacionalistas ucranianos armados de extrema-direita”. Estes grupos ocuparam vários edifícios governamentais, executaram um golpe de estado que levou à destituição do Presidente democraticamente (?) eleito, que se refugiou na Rússia.

Aqui, julgo possível fazer uma observação quanto a estes grupos apelidados de neonazis. São tão violentos como os nazis, tatuam o corpo com símbolos nazis, mas o nazismo caracteriza-se pela perseguição e assassínio de judeus, o que na actual Ucrânia não acontece. Banderas, é verdade, era nazi e foi responsável pelo assassinato de milhares de judeus e hoje, o que não deixa de caracterizar o actual governo ucraniano, é considerado um herói da Ucrânia e há um dia Banderas neste país que substituiu o dia da comemoração da vitória sobre o nazismo. Putin invoca como um dos motivos para a invasão, a que ele chama Operação Militar Especial na Ucrânia, a necessidade de acabar com o nazismo neste país, mas, de facto, esses grupos perseguem e assassinam sindicalistas e, especialmente, russos ou meros falantes de russo na Ucrânia com a mesma violência e os mesmos métodos que os nazis usaram contra os judeus.

O novo governo da Ucrânia que foi levado ao poder no seguimento do golpe de estado declarou-se pró-ocidental, tendo o golpe de estado tido o apoio dos EUA, com participação da CIA. Os EUA, desde 1991, investiram 5 mil milhões de dólares americanos para levar a cabo a destituição do Presidente ucraniano e escolher quem o substituiria no exercício do poder, golpe que a narrativa ocidental transformou nos Acidentes na Praça Maidan, que culminaram em 2014, acidentes que já vinham do ano anterior, ficando conhecido o acontecimento como a “revolução laranja”, atribuindo os disparos sobre a multidão aos defensores pró-russos, quando foram os chamados grupos neonazis a fazê-lo, como escreveu o diplomata americano, historiador e professor Jack F. Matlock Jr., em Dezembro de 2021, numa publicação de relações internacionais da Universidade da Carolina do Norte (in: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/um-diplomata-americano-veterano-e-sua-visao-pro-russia-no-conflito-com-a-ucrania/). Sugiro que leiam toda a informação contida neste «link».

Mas a acção da senhora Nuland já havia começado em 2013, data em que viajou para a Ucrânia. Esta Secretária de Estado Adjunta, Victoria Nuland, num telefonema para o embaixador dos EUA na Ucrânia, Geoffrey Pyatt, telefonema esse que foi pirateado e tornado público, acabou por denunciar toda a intervenção americana nos acontecimentos e onde proferiu a célebre expressão, quando lhe foi referida a União Europeia —na altura fora da preparação do golpe de estado— “Fuck EU”. A Ucrânia, de repente, passou a ser um país pronto a entrar na NATO e na União Europeia, tornando-se hostil à Rússia.

O governo russo do Presidente Putin logo deduziu que estava em perigo a sua base naval de Sebastopol e decidiu anexar a Crimeia.

A partir daqui, começa a narrativa americana, que se tornou narrativa ocidental, de que a Rússia queria anexar toda a Ucrânia e, de seguida, a Europa.

As provocações ocidentais, contrariamente ao que se diz, continuaram depois de 2014:

  • Os EUA iniciaram um programa de apoio militar massivo à Ucrânia, que atingiu um valor de 4 mil milhões de dólares até ao início da invasão russa da Ucrânia;

  • Os EUA colocaram, na Roménia, uma instalação ABM (instalação defensiva de mísseis balísticos, mas que também permite o lançamento até de mísseis de cruzeiro nucleares, com vários tipos de alcance);

  • Uma plataforma semelhante foi construída na Polónia;

  • Outros países da NATO começaram a fornecer armas e a treinar as forças armadas ucranianas, desenvolvendo mesmo exercícios navais e aéreos em conjunto com as forças armadas da Ucrânia, sendo de referir que a Ucrânia não era nem é membro da NATO;

  • A NATO organizou vários exercícios militares à volta da Rússia, sendo um desses exercícios com fogo real executado na Estónia, em 2020, a pouco mais de 100 km da fronteira com a Rússia e, no ano seguinte, simulou mesmo neste país um ataque a alvos de defesa aérea russa;

  • Em Agosto de 2021 foi assinado um acordo EUA-Ucrânia, apelidado de “Quadro Estratégico de Defesa EUA-Ucrânia”;

  • Em Dezembro de 2021, o embaixador russo nos EUA, escreveu um artigo publicado na revista Foreign Policy onde, a dado passo, dizia: “A exploração militar da Ucrânia pelos estados membros da NATO é uma ameaça existencial para a Rússia”.

Se em vez do cerco à Rússia esse cerco fosse feito aos EUA, qual seria a reacção deste país? Lembremos o caso dos mísseis em Cuba [refere-se que a Rússia (então União Soviética) teve de retirar os mísseis, mas não se diz que os EUA tiveram de retirar, como moeda de troca, os mísseis que tinha instalado na Turquia. Mais uma vez a mentirosa propaganda ocidental, escondendo a verdade].

Os avisos das linhas vermelhas por parte de Moscovo foram ignorados no Ocidente, a mando dos EUA.

A senhora Nuland, no «Fórum de Segurança de Kiev», em 25 de Maio de 2023, afirmou que a contra-ofensiva estava a ser preparada pelos EUA há muitos meses, o que torna claro que a guerra não opõe a Rússia apenas à Ucrânia, mas à NATO, com especial participação dos EUA.

A partir do golpe de 2014, as perseguições aos pró-russos do Leste e do Sul da Ucrânia, com as chamadas forças neonazis em acção, com assassinatos constantes, levou a que os pró-russos se organizassem para a resistência, tornando-se num conflito aberto, com o regime de Kiev a ordenar bombardeamentos a Donetsk e Lugansk, bombardeamentos estes que não se destinavam a atingir alvos militares.

Em 1 de Maio, juntaram-se cerca de 5.000 manifestantes anti-Maidan e acamparam em frente da Casa dos Sindicatos, em Odessa, em sinal de protesto e, os pró-Maidan, incluindo sobretudo os designados neonazis, atacaram-nos no dia seguinte com armas de fogo e «cocktails Molotov», de que resultou o assassínio de 42 dos manifestantes.

Claro que a Rússia foi em socorro dos seus compatriotas, o que, aqui vou resumir, acabou por levar aos Acordos de Minsk (I e II). Para abreviar, digo que o Acordo de Minsk II foi celebrado em 11 de Fevereiro de 2015, assinado por representantes da Ucrânia, da Rússia, da França e da Alemanha, no qual se estabelecia o cessar fogo no dia 15 desse mesmo mês, confisco das armas pesadas, libertação e amnistia de prisioneiros, retirada das tropas estrangeiras e reformas constitucionais para criar uma maior autonomia das partes rebeldes, que se manteriam como parte da Ucrânia (agora, em virtude da guerra, na posse da Rússia e já anexadas por esta), ficando o controlo das fronteiras da responsabilidade da Ucrânia.

Os Acordos de Minsk não foram cumpridos pela Ucrânia, com a conivência do Ocidente. Numa entrevista ao jornal Die Zeit, em Novembro de 2022, Angela Merkel tornou claro que os Acordos serviram apenas para dar tempo à Ucrânia de se armar e se preparar para a guerra e para que “se fortalecesse, como pode ser visto hoje”, afirmando, nomeadamente, que “A Ucrânia de 2014/15 não é a Ucrânia de hoje. Como visto na batalha por Debaltsevo no início de 2015, Putin poderia facilmente tê-la invadido então. E duvido muito que os Estados da OTAN pudessem ter feito tanto quanto estão fazendo agora para ajudar a Ucrânia”. Mais ou menos as mesmas declarações foram feitas por Merkel à revista Der Spiegel.

É evidente que as razões da actuação dos EUA são bem diferentes daquelas que são propagandeadas. A crise de 2008 mostrou a fraqueza dos EUA e, preocupação maior, também mostrou a força da economia chinesa, em constante ascensão. Também a Rússia mostrava uma economia pujante e havia que evitar que houvesse uma aliança estratégica China-Rússia, pensando-se nos EUA que se tornava urgente provocar de novo o colapso da Rússia, sendo a guerra da Ucrânia um passo fundamental para atingir tal objectivo, a que se juntariam as sanções, que já ultrapassam as 19.000. Com estas medidas, a economia russa iria colapsar e só ficaria a China para combater, o que se esperava fazer boicotando a sua economia, muito dependente das compras dos países ocidentais.

Como hoje se verifica, a economia russa não colapsou, a China e a Rússia estão mais unidas do que nunca, a que se juntaram muitos outros países. Quem está a colapsar para já, para além da Ucrânia, já meia destruída, é a Europa, cujo padrão de vida, o mais alto do Mundo, só foi conseguido graças aos produtos baratos adquiridos à Rússia, nomeadamente os produtos energéticos. Na Grã-Bretanha deixam-se morrer os idosos não lhes prestando qualquer assistência médica e medicamentosa, na Alemanha e na França, a economia está de rastos, a crise na indústria automóvel, motor da economia alemã, está numa situação catastrófica, cujos efeitos já se fazem sentir em Portugal, com fábricas de automóveis a fechar, como está a acontecer na Alemanha e em outros países europeus.

Para cúmulo, está em construção uma nova ordem mundial, com a criação dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), com vista a melhorar a situação económica global e a reforma das instituições financeiras, acabando com a hegemonia do dólar americano, comprometendo-se os países que formam os BRICS a uma política de não interferência e assumindo um compromisso na criação de uma forma de multilateralismo em que os países fundadores, assim como aqueles que se vierem a juntar, se consideram como parceiros iguais, visando claramente reformar a governação global e criar uma ordem mundial mais justa.

Os BRICS assustaram os EUA e os países seus próximos, sendo também este facto que levou à guerra na Ucrânia e às muitas guerras que estão a ser fomentadas pela indústria de guerra americana. As mais de 800 bases militares que os EUA têm espalhadas pelo Mundo, a que se junta o porta-aviões fixo mais dispendioso para os EUA que é Israel, já não são suficientes para manter os EUA ad aeternum como senhores do Mundo.

A guerra na Ucrânia e as sanções não atingiram os objectivos de fazer colapsar a Rússia, mas se os EUA continuarem, como vêm fazendo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a fomentar guerras e caos pelo Mundo, como demonstra, com propriedade (v. os vídeos indicados na nota 3), Jeffrey Sachs (3), quem acabará por colapsar são os EUA, o que, tendo em conta o poderio que ainda têm, vai demorar muito tempo, o que me impedirá, tendo em conta a minha idade, de ser testemunha.

Lembro a entrevista dada por Jeffrey Sachs ao jornal Público, publicada no P2 em 16 de Junho de 2024:

Atente-se no destaque dado pelo jornal: «Jeffrey Sachs: “Fico muito triste por ver como a Europa é manipulada e dividida pelos EUA”». Eu sou português e europeu, para onde dirijo as minhas primeiras preocupações — o que não significa, devido, provavelmente, à influência sartriana, que não me preocupe com o resto do Mundo —, mas os chamados representantes dos povos da U. E. não parecem preocupados, naturalmente mais atentos ao que lhes é depositado na conta bancária no fim do mês.

Na guerra na Ucrânia, o papel da Europa e, particularmente, da U. E., deveria ser a procura da paz, pôr termo à guerra, mas fez o contrário, impedindo mesmo, com o papel principal a ser desempenhado por Boris Johnson, a assinatura do acordo por parte da Ucrânia que Erdogan havia conseguido, o que teria evitado milhares de mortos e a perda de território por parte da Ucrânia. Bastava que o presidente ucraniano aceitasse a neutralidade e a guerra terminava. Resultado: mais de 500.000 mortos até ao momento e parte significativa da Ucrânia destruída; se levarmos em consideração os feridos, alguns com muita gravidade, só a Ucrânia já perdeu cerca de um milhão de cidadãos. Como é que conseguem dormir os responsáveis por esta tragédia, a começar em Boris Johnson?

Lembro o que Jeffrey Sachs disse também nessa entrevista:

“Os europeus acordaram um empréstimo de 50 mil milhões de dólares à Ucrânia. Isto é ridículo, são 50 mil milhões para continuar uma guerra onde ucranianos vão morrer. Em vez desse empréstimo, as pessoas nas ruas deviam dizer aos governos para acabar com a guerra e dizer não ao alargamento da NATO. Pedir aos nossos líderes que se reúnam e acabem com a guerra hoje. Depois, o que podemos fazer com esse dinheiro? Há coisas que podemos fazer na nossa própria parte do mundo, mas se de facto temos 50 mil milhões de dólares que podemos emprestar, emprestem-nos à União Africana, para que todas as crianças em África possam ir à escola. Isso aliviaria a crise da migração, a crise da pobreza. É preciso pensar de forma muito mais sistemática sobre o que fazer.”

Temos a Europa a caminhar para o desastre.

Entretanto, é bom lembrar que a economia dos EUA está bem pior do que parece. O equilíbrio das contas faz-se, em grande parte, com as transferências do capital financeiro da Europa à procura de maior rendimento, pois aos especuladores financeiros não interessa produzir riqueza, mas apenas especular de modo a aumentar os seus lucros (aqui não resisto a dizer, mesmo que mal comparado, que isto me recorda o efeito no orçamento português da remessa dos emigrantes portugueses para Portugal no tempo do nacional-salazarismo). Julgo que Donald Trump tem consciência da situação americana e saberá que o caminho para recuperar os EUA não passa por sustentar mais guerras. O sustento de mais de 800 bases militares espalhadas pelo mundo, incluindo o porta-aviões fixo chamado Israel, já trazem problemas incomportáveis para as finanças americanas.

Até à segunda presidência de Trump, os dirigentes da U. E. comportaram-se como cachorros obedientes junto dos americanos, sempre evitando levar um chuto no cu por saberem que o cachorro traquinas a isso está sujeito.

Agora, Trump está a destruir a narrativa do perigo da Rússia e dos objectivos imperialistas de Putin. O que Trump quer é fortalecer a economia americana por saber o quão fragilizada ela está, absolutamente carecida da reindustrialização de modo a rectificar o que a globalização destruiu e, portanto, não pode a América continuar a gastar fortunas com a protecção da Europa. O grande adversário dos EUA não é a Rússia, mas a China. É assim, julgo, que pensa Donald Trump. A Ucrânia não tem qualquer valor militar para Donald Trump, apenas está interessado em explorar as suas matérias-primas. Quanto à Europa, incluindo claro a U. E., se querem entrar em guerra com a Rússia, que assumam os inerentes encargos.

Não estou a defender Trump, mas seria bom que os europeus entendessem que o comportamento dos EUA não olha a amizades, por mais antigas que elas sejam, o que interessa aos seus governos, democratas ou republicanos (entre uns e outros venha o Diabo e escolha), é a vantagem que podem tirar em cada situação, sendo à custa dos outros que os EUA, sobretudo, vivem. Enquanto o dólar imperar nas transacções comerciais? Mas todos os anos o dólar vai perdendo a sua influência, daí o susto que os BRICS trazem à economia americana. Mais de 40% das transacções internacionais já não se fazem tendo como moeda o dólar americano.

Com as novas tarifas impostas por Trump, veremos que consequências isso vai trazer para os próprios EUA; para além de confirmar que os EUA não são um parceiro fiável, está já a levar que outros países façam acordos que não há muito tempo eram impensáveis. Segundo as últimas notícias, após Trump ter definido as tarifas a aplicar a alguns dos países que sempre alinharam com os americanos, houve um consenso entre a China, o Japão e a Coreia do Sul no sentido de virem a coordenar a sua resposta, para além de já terem acordado que o Japão e a Coreia do Sul vão importar matérias-primas semicondutoras da China e este país passará a comprar chips do Japão e da Coreia do Sul, ou seja, Trump conseguiu criar uma cooperação entre estes três países que ninguém pensaria, há uns tempos recentes, ser possível.

O dólar vai desvalorizar, o que será uma das intenções de Trump, facilitando as exportações americanas. Até quando esta política é benéfica para os EUA?

Será assim que Trump vai conseguir uma América grande de novo?

Haverá alguma racionalidade na política de Trump senhores economistas?

Aquando da sua primeira presidência, Donald Trump tentou que as empresas americanas regressassem aos EUA, sobretudo aquelas grandes empresas que, com a globalização, foram à procura de mão-de-obra barata, levando com elas a tecnologia de que outros países, os que receberam as empresas americanas, bem se aproveitaram. Mas o regresso das empresas que Trump pretendia não têm nos EUA os técnicos de que necessitam, sobretudo engenheiros, dado que os jovens americanos passaram a escolher os cursos universitários que lhes garantiam emprego no seu país e, sobretudo, com os melhores deles a escolherem o sector financeiro como alvo de trabalho.

Lembro ainda outra parte da entrevista de Jeffrey Sachs:

«Em 1989, tinha aconselhado o Governo polaco. Sugeri um conjunto de instrumentos e como utilizá-los. Eles foram adoptados, e as políticas funcionaram. A inflação parou. O crescimento económico foi retomado. Recomendei que a dívida fosse cancelada para que a Polónia pudesse começar de novo após o período soviético. Ora, recomendei as mesmas acções no caso da União Soviética, quando aconselhei o Presidente Gorbatchov, e um conjunto semelhante de acções no caso da Rússia, quando aconselhei o Presidente Iéltsin. Os instrumentos que eu queria utilizar eram a anulação da dívida, a concessão de créditos e outras acções, mas os EUA disseram “não”. Portanto, o muro não estava na Rússia, mas em Washington. Na altura, em 1992, ainda não estava tão consciente da forma como o Governo dos EUA se comportava como estou hoje. Aquela era uma boa receita, tinha funcionado na Polónia, deviam fazer a mesma coisa com a Rússia. E um alto funcionário dos EUA disse-me que isso não iria acontecer por causa da política dos EUA. Não se tratou de um fracasso económico, foi uma decisão política dos EUA de não ajudar a Rússia.»

Os EUA viam a hipótese de ver concretizada a sua velha ambição: a divisão da Rússia em pequenos países que, com mais facilidade, ficariam nas suas mãos, com as matérias-primas de que a Rússia é possuidora, por fim, à sua disposição.

A Rússia tem resistido e hoje terá uma economia a progredir a uma taxa superior à dos EUA, apesar da guerra. Claro, será necessário que a guerra também não se prolongue por muitos anos para que a economia russa não entre em perda.

Por seu lado, a economia americana não estará tão saudável como se diz e Donald Trump sabe-o muito bem e, julgo que por isso, concluiu que a guerra na Ucrânia já deixou de ser do interesse dos EUA e que será bem mais proveitoso fazer a paz e procurar a possibilidade de bons negócios com a Ucrânia e com a própria Rússia, especialmente na obtenção das matérias-primas de que estes países são detentores, o que será mais fácil consegui-lo com a Ucrânia do que com a Rússia, dado que as sanções que o Ocidente tem imposto a este último país o levaram a transformar essas matérias-primas e a exportar os produtos, como referirei mais à frente.

Seria também interessante que no Ocidente se pensasse na razão por que alguns desses produtos não estão impedidos de ser exportados para o Ocidente (alumínio, urânio, centrais nucleares e até alguns que estão nas sanções, como o gás natural e o petróleo), o que não analiso aqui por ultrapassar o âmbito do objectivo deste texto.

Inclino-me para os problemas que a economia americana está a viver, acrescentando a isto a efectiva desdolarização nas trocas comerciais, que avança em ritmo acelerado, o que não pode deixar de muito preocupar o governo americano. Voltarei a esta questão mais à frente.

No Le Monde Diplomatique, versão em português, deste mês (Março de 2025), escreve Hélène Richard, no texto intitulado «Paz em marcha forçada na Ucrânia»:

“Isto apesar de os Estados Unidos terem «investido» na Ucrânia uma média de 35,3 mil milhões de dólares por ano desde 2022. Bem mais do que os 3 a 5 mil milhões de dólares que Washington concedia a Israel anualmente antes do 7 de outubro de 2023; o equivalente a quase metade das despesas militares anuais com o Afeganistão entre 2011 e 2019 – um esforço que financiava uma ocupação militar e operações diretas. O nível do apoio à Ucrânia situa-se, portanto, algures entre o correspondente à ajuda dada a um aliado histórico no Médio Oriente e o de um envolvimento no terreno em nome próprio. Mas para Trump pouco importa: a guerra na Ucrânia não é uma guerra dos Estados Unidos, é só a guerra do seu antigo rival, Joe Biden…”

Será que os EUA chegaram agora à conclusão de que fomentar guerras por todo o mundo já não traz a riqueza habitual? Ou os BRICS estão a obrigar os EUA a mudar de estratégia? Não esqueçamos que mais de 40% das transacções internacionais deixaram de ter o dólar como a moeda utilizada, como já referi.

Haverá ainda um outro propósito da administração Trump: a destruição da aliança China-Rússia, procurando seguir o exemplo de Henry Kissinger, que teve também como consequência o reconhecimento internacional de que Taiwan é parte integrante da China, mas isto não é habitualmente recordado. Só que agora o amigo a atrair para a esfera americana é a Rússia. Mas os EUA já não têm um Kissinger.

“Ao contrário daquilo que se passava no mundo quando Kissinger embarcou em segredo num avião rumo a Pequim para assinar um acordo que viria a mudar o rumo da Humanidade, hoje os objetivos estratégicos da Rússia e da China estão muito mais alinhados que no passado. Mais do que a ideologia que os aproximava, hoje as duas nações estão a emergir no panorama global e querem desafiar as instituições globais lideradas pelos EUA e colocar em causa uma das principais armas de Washington no mundo: o domínio do dólar.

(…)

Desde 2022, o discurso em torno da “desdolarização” tem-se intensificado, particularmente entre os países que formam os BRICS, que anunciaram numa cimeira em 2024 a criação de um sistema de pagamento descentralizado para pagamentos internacionais em moedas nacionais como alternativa ao SWIFT e que reduz a exposição destes países a sanções. Apesar do entusiasmo no anúncio, alguns especialistas alertam que a criação de um sistema credível alternativo ao dólar é algo que pode demorar muitos anos. Ainda assim, os dois países demonstram estar unidos em fazer isso acontecer.”

(in: https://cnnportugal.iol.pt/donald-trump/xi-jinping/porque-a-estrategia-de-trump-para-separar-a-china-da-russia-esta-condenada-a-falhar/20250325/67e1a09ed34ef72ee443ddaf).

Passados uns dias de escrever o que deixo atrás, li um texto de Alastair Crooke, ex-diplomata britânico, fundador e director do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente, para além de ter um passado de espião em lugar de destaque na inteligência britânica (MI6), assim como na diplomacia da União Europeia. Após a reforma do MI6, foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, de que transcrevo:

Não é a Rússia a avançar com as negociações; muito pelo contrário – é Trump que está a avançar. Porquê? Parece remeter para o apego americano à estratégia de triangulação ao estilo de Kissinger: subordinar a Rússia; despojar o Irão; e depois afastar a Rússia da China. Oferecer cenouras e ameaçar ‘aderir’ à Rússia, e uma vez subordinada desta forma, a Rússia pode então ser separada do Irão – removendo assim quaisquer impedimentos russos a um ataque do eixo Israel-Washington ao Irão.

Primakóv, se ele estivesse aqui, provavelmente estaria a alertar que a ‘grande estratégia’ de Trump é amarrar a Rússia a um status subordinado rapidamente, para que Trump possa continuar a normalização de Israel em todo o Oriente Médio.

E, mais à frente, continua Alastair Crooke: “agora são os EUA que descobriram que o modelo anglo-saxónico provou ser autodestrutivo.

Os EUA foram forçados a duas importantes conclusões: primeiro, que o défice orçamental, juntamente com a explosão da dívida Federal, finalmente virou a ‘maldição dos recursos’ contra os EUA.

Como ‘guardião’ da moeda de reserva global – e como disse explicitamente JD Vance – fez necessariamente com que a exportação primordial dos Estados Unidos se tornasse o dólar americano. Por extensão, significa que o dólar forte (impulsionado por uma procura artificial global da moeda de reserva) eviscerou a economia real dos Estados Unidos – a sua base de produção.

Trata-se da “doença holandesa”, em que a valorização da moeda suprime o desenvolvimento dos sectores produtivos de exportação e transforma a política num conflito de soma zero sobre as rendas dos recursos.” (in: https://aviagemdosargonautas.net/2025/04/04/espuma-dos-dias-a-fraqueza-transacional-inclina-o-equilibrio-de-poder-nao-se-apegue-a-ilusoes-nao-ha-nada-alem-desta-realidade-por-alastair-crooke/).

Evidentemente, o caminho não será fácil para a Rússia, dado que nem todos os países envolvidos nesta nova associação, BRICS, cortaram relações comerciais com o Ocidente. «Outra diferença fundamental são as relações que os membros mantêm com o Ocidente. Enquanto Rússia e Irão estão totalmente afastados, países como o Brasil, a Índia, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos continuam a ter laços estreitos com os Estados Unidos da América e outros países ocidentais. Qualquer tentativa russa de tentar hostilizar mais estes países poderá encontrar resistência.

“Ninguém neste bloco está disposto a colocar-se na posição em que a Rússia se encontra atualmente, como um adversário aberto do Ocidente e dos Estados Unidos, arriscando-se a um confronto armado”, disse ao Washington Post Boris Bondarev, antigo representante da Rússia na sede das Nações Unidas de Genebra, em agosto de 2023.

Apesar de tudo isto, Tiago André Lopes afirma que o grupo está “numa fase ascendente”.

“Se os BRICS conseguirem, de facto, traçar um roadmap para ter regras institucionais mais rígidas e mais formais, então vão passar a ser, claramente, uma espécie de grupo de contestação ao G7. Mas isso vai depender dessas regras formais, do eventual aparecimento de um quartel-general ou de uma sede. Será interessante ver se vai ou não acontecer e acho que pode dar um novo élan à instituição”, conclui.» (in: https://cnnportugal.iol.pt/brics/russia/os-brics-estao-maiores-e-mais-fortes-e-querem-uma-nova-ordem-mundial-menos-dependente-do-ocidente/20241022/6712b168d34e94b829067503).

Por muitas dificuldades que tenham os BRICS, a verdade é que a sua existência está a trazer dificuldades aos EUA com as quais este país nunca se havia confrontado. Pelo menos, a nova administração Trump parece estar preocupada.

A aliança entre a China e a Rússia nunca terá estado tão forte como agora, nem talvez em 1949, outra das grandes façanhas da chamada administração Biden. O mundo multipolar está em desenvolvimento imparável e a administração Trump sabe-o. Para os americanos a Ucrânia é carne para canhão, como já o foi na chamada administração Biden, mas não deixará de tentar abocanhar as riquezas da Ucrânia.

Não há aliança que resista aos interesses americanos. Não se pode confiar nos negociadores americanos, sejam eles republicanos ou democratas, como a recente e escabrosa cena a que assistimos na Sala Oval, em Washington, parece comprovar. Zelensky ter-se-á posto a jeito, mas também terá esquecido que quem sofre as consequências é o povo ucraniano.

Trump é agora o dirigente ocidental que mais interessado se mostra na paz na Ucrânia, mas, aquando do seu primeiro mandato, não deixou de enviar armas para combater a invasão russa. Porquê agora esta postura? O problema orçamental norte-americano obriga a algum pragmatismo?

O êxito de Donald Trump tem muito a ver com o desastre do Partido Democrata na condução dos EUA, o que foi agravado com a dupla Biden/Harris.

Katherine Rose Halper (Katie Halper), comediante, escritora, cineasta e comentarista da política americana, numa palestra havida em Bruxelas, no passado dia 7 de Março, num evento organizado pelo DIEM25 – “WTF Happened to Europe?”, falou sobre as agendas ocultas na política e na mídia, centrando-se na política externa americana e suas implicações globais. Justapôs citações de Noam Chomsky e de Donald Trump, demonstrando gritantes semelhanças em afirmações de um e outro que muito surpreenderam. A dado momento, disse Katie: “A razão pela qual podemos até jogar este jogo… é porque eles têm algo em comum. Eles afirmam verdades inconvenientes.” (in: https://diem25.org/katie-halp19.000er-media-manipulation-and-the-truths-of-war/)

Claro que as afirmações de um e outro visam fins diferentes; enquanto Noam Chomsky procura alertar as consciências na procura da verdade e na busca de um mundo melhor, Donald Trump procura enriquecer os mais ricos, entre os quais ele próprio, pondo ao seu serviço todos os demais. Fazer dos ricos mais ricos, é para Donald Trump fazer de novo a América grande.

A decadência americana começou depois das presidências de Dwight Eisenhower (1953-1961), iniciando um processo muito lento e pouco compatível com o nosso tempo de vida, mas vai ter um fim a que já não assistirei. Essa decadência americana é muito mais acentuada do que muitos no Ocidente pensam, mas duvido que Donald Trump tenha capacidade intelectual para conhecer as razões de fundo dessa decadência. Trump está formatado para dois objectivos: obter poder e dinheiro. Será que ele acredita no que diz a propósito das taxas que determinou para as importações, taxas diferentes entre os países exportadores para os EUA? Será que ele pensa mesmo que vai conseguir os triliões de que necessita para pagar a monstruosa dívida do seu país?

Há economistas a dizer que não vai ter capacidade para alguma vez a pagar. Donald Trump sabe disto e agora tenta rapinar riquezas em todos os locais onde as haja, a começar já pela Ucrânia? Só que os tempos em que os EUA eram a potência hegemónica a que todos os outros teriam de se submeter, dado que, entretanto, no Mundo se vai construindo um multilateralismo que os EUA não têm poder para parar.

Os EUA constituem um país não confiável, como a própria Europa o começa a sentir.

Há amigos e conhecidos meus que não vão aceitar esta minha posição em relação aos EUA. Pensam que os EUA continuam a ser o país democrático que foi um dia (até isto é discutível, pois a América foi um país democrático quando era bem racista, os negros que o digam, mas era um país coeso), hoje é um país de uma decadência que se vai aprofundando de dia para dia, até as suas fortes instituições, que equilibravam o país, a começar na Justiça, estão hoje uma sombra do que foram, o que faria corar de vergonha os pais fundadores. A análise dessa decadência é demorada e tem de considerar não apenas o sistema político e esse equilíbrio institucional que existiu, mas também o sistema educacional e a própria religião protestante que contribuiu para o respeito por valores que começam a desaparecer da sociedade americana e fazê-lo saía fora do objectivo do presente trabalho, pelo que me limito a esta pequena referência. Não pretendo convencer ninguém, a começar por aqueles a que aludi acima, os quais continuam a ter fé nos EUA e a fé das pessoas não se discute, até pela irracionalidade que a acompanha. Leiam, peço-vos, Emmanuel Todd e os livros que dele cito e refiro na bibliografia, em especial os capítulos 8. La vraie nature de l’ Amerique: oligarchie et nihilisme, 9. Dégonfler l’ économie américaine e 10. La bande de Washington, do seu último livro, La Défaite de L’Occident, tirem conclusões e mudem ou não as vossas opiniões, o problema não é meu.

A globalização até conseguiu destruir a classe operária, dado que os operários não acompanharam a deslocalização das grandes empresas, as quais saíram dos EUA também para ir ao encontro da mão-de-obra barata; consequentemente, os sindicatos hoje estão muitíssimo longe de ser um factor de equilíbrio da sociedade americana como o foram no passado. Outra consequência foi a passagem de um número de famílias da classe média para a parte da população em risco de pobreza ou que caíram mesmo na pobreza. O Partido Democrático terá sido a primeira instituição a senti-lo nos actos eleitorais.

A Europa, a começar pela União Europeia, também deveria pensar sobre tudo isto? Com os políticos que (des)governam a Europa não iremos a lado algum que traga progresso e bem-estar aos europeus. Mas serão os europeus capazes de construir um futuro feliz e independente destes políticos?

É a China, pelo que tenho lido, quem tem uma grande percentagem da dívida americana e, como não sou economista, pergunto: em resposta às taxas lançadas por Trump sobre as importações de produtos chineses, como poderá a China usar essa monstruosa dívida americana que tem em mãos? Estou cá para ver, espero.

Lealdade e palavra de honra — «roubo» a expressão ao Carlos Matos Gomes — são valores que os EUA desconhecem no seu relacionamento com os outros países, sejam republicanos ou democratas a governar, atitude que souberam herdar dos Britânicos.

Não esqueçamos Henry Kissinger:

Trump quer isolar a América, entenda-se EUA, e todos os outros que se submetam à sua vontade? O Mundo hoje é muito diferente do que foi inclusive no tempo da sua primeira presidência. Há o resto do Mundo com que se pode negociar e eu espero que a Europa se vire para Leste e para o Mercosul, que o asnático Macron teima em impedir que o acordo que está em cima da mesa seja assinado e baixemos e/ou não agravemos as taxas e impostos nas trocas comerciais com esse mundo de que os EUA parecem querer isolar-se, pois é nessa colaboração que pode a Europa voltar ao progresso e ao estado social que já foi o seu.

O que Donald Trump está a fazer às Universidades vai sair muito caro ao país, podendo mesmo comprometer o seu futuro. Algumas universidades americanas são (ou eram a partir de agora?) centros de saber, centros de investigação que muito contribuíram para a riqueza do país e tudo isso pode ser comprometido (v. https://aviagemdosargonautas.net/2025/04/19/espuma-dos-dias-o-ataque-de-trump-as-universidades/).

Trump fala em querer a reindustrialização dos EUA com as medidas que está a tomar, mas duvido que o consiga. Ou as tarifas visam apenas compensar o Estado pela diminuição dos impostos aos ricos que ele pretende? A inflação dispara? Não há problema, os 10% ricos pagam menos impostos, as tarifas dão alguma compensação e os 90% dos americanos pagam a factura. Se quer mesmo essa reindustrialização, então estude as medidas tomadas pelo seu antecessor Franklin Delano Roosevelt, mas, quando este morreu, Trump ainda não tinha nascido e conhecer a própria história dos EUA não deve ser uma das suas preocupações.

A BlackRock, Inc. é uma das grandes multinacionais norte-americanas de investimentos, sendo a maior operadora em gestão de activos e gestão de riscos e o maior sistema da banca sombra do mundo, como é classificada na Wikipédia, mas é bom não esquecer que uma das maiores fontes de rendimentos da empresa é o negócio de armas e já se aponta para que a BlackRock venha a intervir na reconstrução da Ucrânia.

O crescimento significativo da BlackRock deu-se nas presidências de Clinton e Obama e, se Hillary Clinton tivesse ganho as presidenciais, o seu secretário do Tesouro era o indicado por esta empresa. Na campanha de Kamala Harris, caso vencesse a eleição, estava já indicado pela BlackRock quem seria o secretário do Tesouro. O facto de ter ganho a eleição Donald Trump não impediu que fosse a BlackRock a aconselhar quem deveria ser o secretário do Tesouro, sabendo-se que a multinacional está a colaborar com a nova administração Trump. Há que lembrar também que a BlackRock teve três gestores na administração Biden/Harris.

Trump foi presidente dos EUA entre Janeiro de 2017 e Janeiro de 2021, um período em que a entrega de armas à Ucrânia não parou de crescer, para, como disse Angela Merkel, a Ucrânia se preparar para a guerra. E agora Trump apresenta-se como o mais interessado na paz.

Dito isto, com base em factos, uma dúvida, no entanto, se instala em mim: sendo uma das maiores receitas da multinacional o negócio de armas, como acima refiro, e sendo a empresa uma colaboradora da nova administração americana, porquê esta postura de Trump pela paz? Fomentar guerras, prática dos EUA desde o fim da II Guerra Mundial, para vender armamento, mas apenas a quem pode pagar? E para ter matérias-primas à sua disposição? Ou a exploração das riquezas que ainda restem da Ucrânia são melhor negócio?

Não resisto a transcrever aqui um Haiku da autoria do meu amigo Luiz Humberto Marcos:

COM TERRAS RARAS

ESTRELAS ESMORECEM

GARRAS AQUECEM

As preocupações dos EUA há já muito tempo estão no Pacífico, com particular acuidade no Mar da China e em Taiwan, zona onde os americanos têm apoios importantes do Japão, da Coreia do Sul, da Austrália e da Nova Zelândia, nomeadamente, mas até quando?

Voltando à BlackRock, também a Europa não está liberta das suas garras, pois não podemos esquecer que o novo Chanceler alemão, Friedrich Merz, foi presidente de supervisão da subsidiária BlackRock Asset Managemente Deutschland Aktiengesellschaft, entre 2016 e 2020, proporcionando várias aquisições chave no tecido empresarial alemão. (4)

Vem aí o rearmamento da Europa, da U. E. em primeiro lugar —com que dinheiro, se só agora se começou a pagar o gasto com a epidemia COVID? E onde estão os soldados para manejarem as armas?—, e sabe-se que a Alemanha é o país da U. E. com mais capacidade para o fabrico de armas. Será que a indústria automóvel vai ser destronada como a maior criadora de valor acrescentado da indústria alemã?

A BlackRock já estendeu os seus tentáculos por toda a Alemanha e penso não ser especulativo que, através do novo Chanceler alemão F. Merz, sejam os interesses da multinacional a ditar as prioridades da governação alemã, para mais sabendo-se que a BlackRock retira, como já referi, muitos dos seus lucros do fabrico de armamento. Vamos ver, na Alemanha, as fábricas de automóveis a transformarem-se em fábricas de armamento? Curiosamente, a BlackRock é também accionista da Tesla, com quase 5% das acções.

A confirmar-se o que acabo de dizer, isto significaria que a U. E. está a colocar mais umas pedras na construção do caminho para o desastre.

Rússia: Gorbatchov, Iéltsin e Putin

A situação económica da Rússia que Mikhail Gorbatchov herdou era desastrosa. São conhecidas as suas tentativas para a sua recuperação, mas o Ocidente não estava interessado nisso, com o comando desta posição nas mãos dos americanos.

“Em 1987, Mikhail Gorbachev tentou reformar e revitalizar a economia com o seu programa perestroika. Suas políticas relaxaram o controle estatal sobre as empresas, mas ainda não permitiam que ele fosse substituído por incentivos de mercado, resultando em um declínio acentuado na produção. A economia, que já sofria com redução das receitas da exportação de petróleo, começou a entrar em colapso. Os preços ainda estavam fixos e a propriedade ainda era em grande parte estatal depois da dissolução da União Soviética. Na maior parte do período após a Segunda Guerra Mundial até o seu colapso, a economia soviética foi a segunda maior do mundo por PIB (PPC) e era a terceira maior do mundo em meados da década de 1980 e 1989, embora em termos de PIB per capita, os soviéticos ainda estivessem atrás dos países do Primeiro Mundo.” (5)

Jeffrey Sachs considera Mikhail Gorbatchov o maior estadista do nosso tempo e, se o Ocidente o tivesse ajudado, viveríamos hoje num mundo muito mais pacífico e com mais prosperidade, é a minha convicção (vale o que vale). E a Europa, a começar pela U. E., tornou-se subserviente dos EUA. Como diz J. Sachs, a Europa necessita de diplomatas, não de comissários de guerra.

As dificuldades de M. Gorbatchov foram imensas, agravadas pela conspiração ocidental, não resistindo eu a contar um episódio que pode parecer caricato, mas que é bem mais sério.

Um empresário português amigo contou-me que visitou a URSS para verificar a possibilidade de ali instalar uma sucursal da sua empresa, com o custo da mão-de-obra a ser muito convidativo. A sua visita resultou numa decepção ao verificar que o alcoolismo estava instalado no seio dessa mão-de-obra e, portanto, constituiria um risco, que ele não queria correr, a instalação na Rússia dessa sucursal.

Eu próprio pude verificar na minha primeira visita à Rússia, ainda URSS e no tempo de Gorbatchov, que o alcoolismo era detectado sem qualquer esforço para confirmar tal ideia, na rua chocávamos frequentemente com pessoas embriagadas, com várias dessas pessoas, homens sobretudo, a serem profundamente desagradáveis para as mulheres por quem passavam.

Gorbatchov tinha consciência do problema e das consequências para a produção da economia russa, mas as medidas que tomou tiveram apenas uma consequência: a queda abrupta da sua popularidade.

Com Boris Iéltsin no poder, o alcoolismo dos trabalhadores russos parece ter deixado de ser problema.

Iéltsin, na sua governação, teve a ilusão de que ao separar-se dos «jovens lobos da reforma» (Helène Carrère d’ Encausse, pág. 294) passaria a ter um Parlamento calmo e uma paz política, mas rapidamente perdeu as ilusões, quando a Duma decretou a amnistia dos golpistas de 1991 e 1993, a que se juntou uma saúde débil e a guerra na Chechénia, forças representadas na Duma a movimentarem-se para o substituir, até que, na dança de primeiros-ministros nomeados por Iéltsin se chega a Vladimir Putin, nomeado para o cargo por Iéltsin em 9 de Agosto de 1999, que o tempo posterior veio a demonstrar que estava encontrado o que viria a ser o sucessor de Boris Iéltsin, problema este que se colocava desde a sua reeleição em 1996.

Enquanto as medidas propostas/impostas pelo FMI iam abrindo caminho para o empobrecimento da Rússia, os oligarcas iam aumentando, quase exponencialmente, as suas fortunas. A propósito, passo a palavra a David Teurtrie:

«Ao mesmo tempo, apareceu uma nova classe, a dos oligarcas, que ajudaram um Boris Iéltsin doente e particularmente impopular, mas apoiado pelo Ocidente, a ser reeleito em 1996 em troca da privatização opaca de sectores inteiros da economia. A apreensão de riqueza fabulosa (petróleo, gás, metais, etc.) desenvolvida sob a União Soviética foi descrita como o “assalto do século”, uma vez que a sua escala é incomparável. Os oligarcas registaram rapidamente os seus novos activos em jurisdições ocidentais e organizaram uma fuga de capitais em grande escala, com dezenas de milhares de milhões de dólares transferidos todos os anos para paraísos fiscais e depois reinvestidos na Europa e nos Estados Unidos.» (6)

Com o que relatei, mais este texto da obra de D. Teurtrie, penso ter ficado bem clara a herança deixada a Putin por Iéltsin. E que fez Putin? Vou referir apenas alguns factos que me parecem relevantes.

O Ocidente também não prestou a devida atenção ao novo Presidente russo, e muito menos se terá interessado em saber que pessoa era/é Vladimir Putin.

Os dirigentes ocidentais estavam mal-habituados.

Como já falámos resumidamente de Gorbatchov e de Iéltsin, agora há que falar de Putin, mas com um pouco mais de atenção, até por ser com ele que o Ocidente tem de pensar que terá de dialogar.

Não é o facínora que a propaganda ocidental «made in USA» diz ele ser. É um patriota, direi mesmo que é um nacionalista, não me esquecendo eu de uma conversa que tive com uma senhora russa, entre os 40 e os 50 anos, em São Petersburgo, em frente ao Museu do Hermitage, na minha última visita à Rússia, após me ouvir criticar Putin e após responder a uma série de questões que lhe coloquei, terminando a senhora por me dizer: “Os jovens criticam Putin, mas a juventude de hoje não viveu o que as pessoas da minha idade e mais velhas viveram. Se não fosse Putin, a Rússia já não existia.»

Sobre a referência aos oligarcas, também devemos reter que não foi Putin a escancarar as portas para que construíssem (?) as suas colossais fortunas —o futebol inglês tirou disso bons proveitos—, mas sim Iéltsin, contrariamente ao que dizem alguns órgãos de comunicação ocidentais.

Também temos de lembrar a acção dos especuladores que correram para a Rússia, não para produzirem riqueza, mas para fazerem fortunas na especulação financeira.

Julgando ter dado uma ideia da herança que Putin recebeu e percepcionando o poder hoje detido pela Rússia, será o momento de nos interrogarmos: se fosse um qualquer dirigente da U. E. a receber uma tal herança, onde estaríamos hoje? Se Putin seguisse os métodos de governação usados na Europa, incluindo a U. E., a que chamamos governação democrática liberal, a Rússia ainda existiria?

Lembro agora algumas datas para chegar depois à acção de Putin a partir do momento em que foi eleito Presidente da Federação da Rússia.

Em Dezembro de 1991 dá-se a implosão da governação de M. Gorbatchov. Via-se confrontado com problemas que não conseguia resolver; para além da crise económica, tinha contra si tanto as forças nacionalistas de direita, como as de esquerda, em constantes manifestações contestatárias. Cai a URSS — a acção de Iéltsin contra Gorbatchov foi central em todo o processo —, segue-se a Comunidade dos Estados Independentes, com a Federação da Rússia a ser o Estado mais importante, com Iéltsin como Presidente.

Há aqui que recordar que, entre 1990-1991, os principais responsáveis ocidentais — Helmut Kohl, John Major, François Miterrand, James Baker, Hans-Dietrich Genscher, Douglas Hurd — garantiram à Rússia que a OTAN/NATO nunca se estenderia para Leste.

Foi a Federação da Rússia a receber o estatuto de potência nuclear e a substituir a URSS na ONU, herdando inclusive o estatuto de membro do Conselho de Segurança com direito de veto.

À frente do Ministério das Relações Exteriores está Andrey Kosyrev, um homem da escola de Gorbatchov, que vai exercer a sua influência sobre o Conselho de política das Relações Estrangeiras e da Defesa, o qual reconhece que a Rússia, apesar de ser uma grande potência nuclear, não passa de uma potência média.

Como já referi, adere ao FMI e ao Banco Mundial, com as habituais consequências, e, “na esteira da casa comum, afirmar o carácter europeu da Rússia: evidenciado, em Maio de 1992, pela candidatura russa ao Conselho da Europa e, em Novembro, pelo início das negociações, iniciadas com as Comunidades Europeias, sobre um projecto de acordo de parceria e cooperação. Tanto para Boris Iéltsin como para Kosyrev, esta parceria privilegiada, baseada em valores partilhados de democracia, respeito pelos direitos humanos e liberdade de empresa, deve servir como instrumento de democratização de um país que se percebe e se define como europeu. Mas, como não conduziu a realizações concretas, o conceito de casa comum foi abandonado: acima de tudo, as autoridades russas procuram ser concretas e pragmáticas nas suas relações com a Europa.» (7)

No seguimento do alargamento da OTAN/NATO a nove países que antes pertenciam à esfera soviética, surge depois o conflito na Jugoslávia, agravado com o início dos bombardeamentos pela OTAN/NATO, que duraram dois meses e que levaram à submissão do Presidente da Sérvia, Slovodan Milosevic, e à independência do Kosovo. Esta acção ocidental violava o direito internacional, razão por que os EUA não quiseram levar o problema ao Conselho de Segurança para evitar o veto russo. O direito internacional só é válido quando interessa ao Ocidente, nomeadamente aos EUA?

A Federação da Rússia foi menosprezada pelo Ocidente, sendo, inclusive, mantida à margem dos Acordos de Dayton, estabelecidos em 21 de Novembro de 1995 pelos Presidentes da Croácia, Bósnia-Herzegovina e Sérvia, reunidos na base aérea americana de Dayton, no Ohio, ficando decidido que o policiamento das novas fronteiras fosse efectuado por soldados da IFOR (missão de imposição da paz, da ONU, que, não apagando a marginalização da Rússia, não deixou de incluir nessa força militares russos, que foram retirados em Julho de 2003).

Mais uma humilhação sentida pela Rússia, um país com memória, mais um aproveitamento da fraqueza em que vivia.

“No Atlas du millénaire, Gérard Chaliand e Jean Pierre Rageau observam:

«Tudo se passa como se uma Rússia enfraquecida fosse mais uma presa do que uma potência não antagónica: o alargamento da NATO, o encorajamento do nacionalismo ucraniano, azeri e uzbeque e, graças às companhias petrolíferas, o projecto de abertura da Ásia Central. Estamos a assistir, sem o nomear, ao recuo que Foster Dulles esperava, quando teve de se contentar com a contenção.

Até nos Estados Unidos se levantam vozes para criticar a política em relação a Moscovo. George Kennan, considerado o arquitecto da política de contenção da URSS, denunciou esta decisão já em 1997, descrevendo as suas consequências lógicas:

«O alargamento da NATO seria o erro mais fatal da política americana desde o fim da guerra fria. É de esperar que esta decisão desperte as tendências nacionalistas, antiocidentais e militaristas da opinião pública russa; que reacenda uma atmosfera de guerra fria nas relações Leste-Oeste e que conduza a política externa russa numa direcção que não é de todo a que desejamos.»” (8)

Não poderia haver melhor previsão.

Apesar de tudo, as correntes ocidentalistas tinham o seu peso, as relações entre a Rússia e a Europa viveram uma espécie de lua de mel (expressão de Marie-Pierre Rey) entre 1992-1995, o que levou mesmo à assinatura, em Corfu, de um Acordo de Parceria e Cooperação em 24 de Junho de 1994. Entretanto, vários problemas criadores de tensão foram surgindo, originando mudanças consideráveis no relacionamento, pelo que esse Acordo apenas entrou em vigor dois anos e meio mais tarde, ou seja, em 1 de Dezembro de 1997. Uma das mudanças foi a nomeação de Ievguêni Primakóv como Ministro das Relações Exteriores, um académico arabista, mas dominando várias línguas, membro do Presidium da Academia de Ciências da Rússia —curiosamente nascido em Kiev em 29 de Outubro de 1929, cidade onde faleceu em 29 de Junho de 2015—, que Gorbatchov havia nomeado membro do Conselho Presidencial em 1990.

Logo que tomou posse, Primakóv fez uma análise muito crítica da diplomacia russa, discordando da aproximação ao Ocidente que vinha a ser seguida, dado que a vontade demonstrada pela Rússia de vir a integrar a comunidade de democracias liberais gerou apenas um mar de dúvidas. A tentativa de aproximação ao Ocidente, segundo Primakóv “… é um negócio de tolos: não só a Rússia não foi totalmente reintegrada na comunidade internacional, não só não conseguiu estabelecer-se como um parceiro que negoceia em pé de igualdade com os Estados Unidos, como, pior ainda, em termos económicos, a tão esperada ajuda ocidental não foi suficiente para evitar a profunda crise em que a Rússia mergulhou em 1992-1993 e, em termos geopolíticos, a Rússia viu as suas esferas de influência diminuírem em resultado do avanço unilateral da diplomacia americana.” (9)

É um sinal de que algo na Rússia começa a mudar. Lembremos, o Presidente passou a ser V. Putin!

A propósito, vou deter-me um pouco neste novo e fundamental actor do tempo em que vivemos.

(continua)

NOTAS

  1. in: Todd, Emmanuel, La Défaite de L´Occident, Éditions Gallimard, janvier 2024, pgs. 104/5;
  2. in: idem, idem, pgs. 105/6;
  3. vejam-se os vídeos em que Jeffrey Sachs, considerado o grande evangelista dos Objectivos do Desenvolvimento do Milénio (ODS) da ONU e Director do Centro para o Desenvolvimento Sustentável da U. de Colúmbia, tudo explica de forma bem clara: https://www.facebook.com/share/v/15hVjm5Qi7/ e https://youtu.be/dMB5y8297Oc?si=1drIJ2sq3wEVWX7J. Este Professor e Economista trabalhou com quase todos os protagonistas políticos dos últimos anos, incluindo, para além dos governos americanos, Mikhail Gorbatchov e outros governantes russos e polacos;
  4. vide: https://aviagemdosargonautas.net/2025/03/03/espuma-dos-dias-a-blackrock-a-frente-da-chancelaria-1-2-por-werner-rugemer/ e https://aviagemdosargonautas.net/2025/03/04/espuma-dos-dias-a-blackrock-a-frente-da-chancelaria-2-2-por-werner-rugemer/;
  5. in: https://pt.wikipedia.org/wiki/União_Soviética;
  6. in: Teurtrie, David, Russie – Le Retour de la Puissance, Dunod Poche, janvier 2024, pg. 194 (Armand Colin, 2021 para a 1.ª edição);
  7. in: Rey, Marie-Pierre, La Russie face à l’ Europe – d’ Ivan le Terrible à Vladimir Poutine, Champs histoire, Flammarion, 2002, pg. 432;
  8. in: Teurtrie, David, Russie – Le Retour de la Puissance, Dunod Poche, janvier 2024, pg. 196/7 (Armand Colin, 2021 para a 1.ª edição);
  9. in: Rey, Marie-Pierre, o. c., pg. 434;

 

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